domingo, outubro 30, 2005

Maratona de Leitura




O que fazer numa tarde de Sábado? Quero aproveitá-la bem, raramente tenho assim tempo livre e não o vou desperdiçar em casa a ver um filme onde o cão fala ou as meninas gémeas foram separadas à nascença e uma é rica e outra pobre. E então descubro a Maratona de Leitura da Culturgest. Acontece todos os anos, numa tarde de Outono, como esta, onde as vozes que lêem muitos e diferentes livros se sobrepõem ao barulho da chuva lá fora. O tema: Amor. Os autores: Fernando Pessoa, José Saramago, David Mourão-Ferreira, Luiz Pacheco, Gabriel Garcia Marquez, Luis de Camões. Escolhemos o nosso percurso: o espaço da culturgest está dividido por números que correspondem a "leitores" e a livros. Entro primeiro na sala das crianças: a menina que fazia o Jardim da Celeste não lê. Interpreta a história e faz da sala um palco. Na plateia, os meninos e meninos ouvem com atenção. Um menino deita-se em cima da mesa, por baixo, a fazer o pino, cambalhotas. Mas não faz barulho.


Depois sigo para a sala onde o senhor conhecido da novela ia começar a ler uma das histórias do "Três Histórias de Amor". Lê mal. Mas a história é boa, fico até ao fim. Segue-se um canto onde se lê poesia. Rápido. Curto. E o senhor desafia quem ali passa a ler qualquer coisa. Fugimos antes que nos calhasse a batata quente. Próxima paragem: o cantinho do voluntário. E um senhor cuja cara penso que conheço lê um longo excerto da Bíblia num papel minúsculo. "Obrigada, boa tarde". E sai. Num dos palcos da Culturgest transformado em sala ouviria-se Dom Quixote daí a minutos. Não me apeteceu ouvir a história toda.

E chego à sala 7. O narrador está encostado à parede, de costas para a porta. Pessoas sentadas no chão, sorrisos, sobrancelhas atentas, está calor. "Eu conheço-o". O narrador era o "papa-concursos", um homem que há uns anos concorreu a quase todos os concursos que existiam e ganhou na maior parte das vezes. Usava uma gravata com porcos. E aqui, nesta sala, ouço-o a falar da "Tusa" do Luiz Pacheco, a bailarina exótica do não menos exótico escritor.

Claro que havia mais. Uma senhora lia a "Odisseia" de Homero. Um senhor o "Amor em Tempos de Cólera" de Gabriel Garcia Marquez. Uma senhora que do alto da sua cadeira de rodas perguntava incessantemente se podia "aqui ler mais um". E, encostado ao pilar, um velhote, cabelos escassos, brancos, casaco e gravata azul, meias a condizer, pedia para ler. "É um poema da minha autoria".

Que coisa preciosa me calhou neste Sábado à tarde.